Costuma-se apontar como original aquele artista que estuda, assiste ou escuta a vários outros e mesmo assim apresenta traços peculiares em sua obra. Com essa afirmativa em consideração, na história da pintura brasileira poucos se destacam tanto quanto Alberto da Veiga Guignard (1896-1962). As particularidades de seus quadros podem ser vistas pelo público gaúcho a partir de quinta-feira na mostra Guignard e o oriente: China, Japão e Minas, em exposição no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), na Praça da Alfândega, s/nº. Ao todo, são quarenta e cinco pinturas de Guignard e paisagens do seu contemporâneo chinês Zhang Daqian, que viveu em São Paulo durante a década de 1950, e mais artefatos da moda e tradição oriental.

Nascido em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, o pintor teve uma vivência no meio artístico invejável: estudou desenho por três anos na Real Academia de Belas Artes de Munique, morou em Paris e chegou a ter um ateliê em Florença. Mas o período mais criativo de sua carreira só veio mais tarde, ao retratar as paisagens de Minas Gerais. “Quando Guignard voltou ao Brasil, se encantou com o colorido e com as luzes usadas aqui e, a partir disso, criou uma pintura independente, diferente da produção da época”, explica Priscila Freire, ex-diretora do Museu da Arte de Pampulha de Belo Horizonte e responsável pela concepção da mostra.

 

A exposição traz justamente imagens pintadas neste período, mostrando a curiosa relação do seu trabalho com as tradições da arte oriental. Nas paisagens retratadas por Guignard, a questão da perspectiva, com ponto de fuga e cores mais carregadas caracterizando o que está mais próximo, não existe.  Ao invés disso, ele simplesmente sobrepõe os elementos no sentido vertical, em técnica que parece singela, mas dá um aspecto singular às figuras. Essa característica pode ser vista nas representações da natureza, o mesmo foco das pinturas chinesas ou gravuras japonesas. Nas mãos do artista, antigos casórios do interior mineiro se confundem com o céu, com montanhas e com balões de festa que pairam no ar.

Paulo Herkenhoff, curador da exposição, também estabelece outra ligação entre o pintor e os dois países: as “chinesices” que proliferam nas igrejas coloniais em Minas Gerais. No interior do estado, há construções barrocas que apresentam pagodes chineses, como a Igreja da Nossa Senhora do Ó, em Sabará, que teriam influência no trabalho do artista.

Em relação a outros pintores brasileiros, o trabalho desenvolvido por Guignard é ímpar. Ele passou ileso pela Semana de Arte Moderna, sem se impressionar demais com as ideias propostas na ocasião. “Enquanto nomes como Portinari se preocupavam em denunciar os problemas no Brasil, ele sempre esteve mais interessado em um País mais poético e mais lírico”, depõe Priscila, que ainda conclui: “Sua arte é resultado da fusão de todas essas culturas que vivenciou. De todas influências, ele tirou uma pintura totalmente pessoal”.

Uma pequena mostra desse artista:

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